sábado, 13 de junho de 2009

O amor e o início da filosofia - mais um ou dois erros de Marilena Chauí


Nietzsche diz que Platão percebeu e confessou, por meio de uma “ingenuidade possível apenas para a um grego, não a um cristão”, que “não haveria absolutamente filosofia platônica se não houvesse tão belos jovens em Atenas”. Na presença desses jovens, mirando-os, o filósofo enlouquece. É a imagem desses jovens que “lança a alma do filósofo numa vertigem erótica” não lhe permitindo repouso “até que tenha plantado a semente das coisas elevadas num solo tão belo”.[1]

Não deveríamos nunca tergiversar a respeito desse verdadeiro início da filosofia platônica, e que, em certo sentido, é o início da filosofia tout court. Mas, para não tergiversar, antes de tudo, não podemos errar.

Após ter levantado o erro da professora Marilena Chauí a respeito do elenkhós,[2] volto a mais dois problemas de seus textos, exatamente quanto ao ponto do início da filosofia, com Sócrates e Platão.

Em seu livro Introdução à história da filosofia, a professora Marilena Chauí inicia o tópico “a filosofia de Sócrates” dizendo que o ‘conhece-te a ti mesmo’ e o ‘sei que nada sei’ são “as duas expressões que ninguém no pensamento ocidental jamais duvidou que fossem de Sócrates”. Ela ainda acrescenta que, com tais perguntas “o homem, a ética e o conhecimento surgem como as questões centrais da filosofia”.[3]

Apesar da expressão de Chauí parecer peremptória, nós todos sabemos que, a rigor, o que ela diz de Sócrates, neste particular, não poderia ser dito. Primeiro, sabemos que o “conhece-te a ti mesmo” era tido como uma inscrição no Templo de Apolo, no santuário de Delfos. Não era uma expressão de Sócrates, e vinha junto com outras que, enfim, compunham aquilo que os velhos legisladores do povo helênico haviam deixado ali, como ordem do deus. Sócrates endossou a frase. E o modo que o endossou é complexo.

Também não é verdade que Sócrates tenha dito, do modo que a professora Marilena afirma que o fez, a frase “sei que nada sei”. Sócrates nunca se declarou um ignorante, nesse sentido geral. Muito menos fez do “sei que nada sei” um ponto de partida. Ao contrário, o “sei que nada sei” foi, de certo modo, um ponto de chegada. E não foi dito dessa maneira. Em A defesa de Sócrates, o que Platão faz a Mosca de Atenas contar é outra coisa. Após investigar um seu interlocutor sobre um assunto determinado, como de praxe, Sócrates conclui (vejam: conclui!) que ele e seu interlocutor são ignorantes sobre o que tentaram investigar, mas ao menos, sobre o que está em questão, ele sabe que não sabe, enquanto que seu interlocutor imagina que sabe.[4]

Poderíamos rearranjar as coisas para a professora Marilena Chauí? Em parte, sim. Diríamos que, quanto ao “conhece-te a ti mesmo”, o que ela quis dizer foi que ninguém duvidaria que Sócrates assumiu a expressão como lema, embora não fosse uma frase dele. Todavia, quanto ao “sei nada sei”, fica mais difícil salvar a professora. Pois, primeiro, a expressão não é descontextualizada, como ela expôs, e não diz respeito ao início da investigação e, sim, aparece como uma conclusão. Além disso, o mais importante é que em todas as conversações socráticas, a Mosca de Atenas jamais diz que nada sabe. Ele diz saber várias coisas. Sabe tanto que, quando inicia o elenkhos, ele assume o que acredita e pede ao outro que também o faça, e que seja sincero, e isso no que acredita é o seu saber. A chamada “ignorância socrática”, que muitos autores elevam a um paradoxo, não pode ser expressa de um modo descontextualizado, como sendo um “sei que nada sei” em absoluto, geral.

O mais complicado desse trecho da professora Marilena Chauí é que, exatamente no que é chamado de “o início da filosofia” (platônica), Sócrates a desmente. Vamos imaginar que Platão seja o início da filosofia enquanto um gênero literário do Ocidente, e vamos levar em consideração que Marilena Chauí começa o seu capítulo sobre Platão falando do amor, tendo em vista que aí estaria o início da filosofia para o Cisne de Atenas. Se assim agimos, então a leitura de O Banquete é o caminho natural, que Marilena deve citar, e ela assim o faz. Ora, mas é exatamente no início de O Banquete que Sócrates diz claramente que se há algo no qual ele é um bom conhecedor, isso é o amor. A proposta ali, na festa de Agathon, é a de fazer diversas falas sobre Eros, e então, na votação, Sócrates diz que ninguém vai votar contra essa proposta, muito menos ele próprio: “de modo algum” diz Sócrates, “uma vez que a única coisa que eu digo que entendo é da arte do amor”.[5]

Poder-se-ia dizer, em favor da professora Chauí, que ela não considerou a fala de Sócrates em O Banquete, pois este seria um escrito do período intermediário de Platão, em que Sócrates já não é mais o Sócrates histórico. Mas, isso não resolveria o problema dela. Primeiro, ela própria, como mostrei em outro lugar[6], não faz uma divisão rigorosa e consistente entre o “Sócrates de Platão” e o “Sócrates histórico”. Portanto, por esse critério, ela não tem boa defesa. Em segundo lugar, e de modo mais importante, isso que Sócrates fala na casa de Agathon, de fato pode ser tomado como algo seu, uma vez que no livro Lisis, que pertence à fase dos “diálogos Socráticos”, a Mosca de Atenas mostra bem que é versado no assunto sobre o amor, distinguindo-o bem da amizade.

Assim, o “sei que nada sei” que Marilena Chauí imputa a Sócrates, e que vários outros autores, um tanto descuidados, tomam de modo absoluto, não pode ser aceito. Ou seja, não pode ser aceito como tendo sendo dito do modo que ele é posto no livro da professora Chauí.

Exatamente no trabalho de se começar a filosofar, é o amor que está presente. Mas não somente como prática, e sim como um conhecimento. Sócrates diz bem que ele é versado na “arte do amor”. Nietzsche leva bem a sério essa afirmação, chamando Sócrates de “o grande erótico”.[7] Nietzsche leva muito a sério, também, o que seria, segundo ele próprio, a confissão de Platão, de que o início da filosofia só é possível pelo amor.

Aliás, aqui, no trato com o início da filosofia, do modo que Platão a entende, a professora Marilena Chauí também introduz outro ponto problemático. Ela expõe sua explicação de O Banquete, e desconsidera completamente o papel de Alcebíades no texto. Ele entra bêbado, e creio que a professora achou por bem não dar ouvidos a um bêbado! Então, ele acredita que O Banquete diz respeito a uma só coisa: o discurso de Diotima sobre o amor. O dado problemático, no entanto, não é este. É que ela dá ao leitor uma informação errada. Ela termina esse tópico de se livro dizendo que a fala de Diotima-Sócrates é que a “essência de Eros” é o “desejo de formosura – da forma bela ou da bela forma”, e que é isso que “a tradição consagrou com a expressão Amor Platônico”.[8]

Ora, sabemos que a tradição, ou seja, o que viemos contando uns para outros, sobre a expressão “amor platônico”, não é isso que ela diz. E aqui, tanto faz a literatura quanto a conversa comum, o fato é que “amor platônico” é um amor sem sexo, algo do “amor distante”, “idealizado”, às vezes “não confesso”. Enquanto que, para Platão, em O banquete, Eros não abdica de si mesmo em favor de uma essência … deserotizada. O que ocorre no processo da “escada do conhecimento”, é que o interesse pelo belo inicia-se com o desejo pelos corpos belos e atinge o desejo pelo belo em si. Mas isso não significa que, ao fim e ao cabo, Eros perca sua condição erótica propriamente dita. Ao contrário, é mais fácil percebermos nesse processo, como Gregory Vlastos nota, que há aí um caminho que, mais tarde, seria chamado por nós de sublimação. Nosso impulso pelo amor de coisas intelectuais, belas e boas pode ganhar o caráter de fixação e de loucura que estamos acostumados a ver no amor sexual, na paixão erótica. Trata-se, então, do mesmo fio condutor de energia – libido[9] –, diríamos nós, pós-freudianos. Ora, Nietzsche, também ele um pré-freudiano como Platão, notou que Platão estava, sim, mostrando as transformações do instinto erótico, não sua dissolução ou seu abafamento. Mas, se seguirmos Chauí, as coisas se complicam.

Caso paremos no texto dela, no momento em que diz que a “essência de Eros” é o “desejo de formosura”, ficamos aquém de entender a “escada” do conhecimento apresentada por Diotima-Sócrates. Principalmente, teríamos aí de perguntar a razão dela falar que isso é filosofia e ligar tal coisa ao termo grego: philosophia – “desejo de saber”. Ora, philia e eros são “amor” de modos bem diferentes. E o próprio Sócrates fez as distinções devidas. As ligações que Chauí faz são mecânicas, pouco explicativas. Se as seguimos, é como se o amor-erótico virasse amor-amizade, de modo a poder justificar a etimologia da palavra filosofia. Não é isso que Sócrates apresenta em O Banquete, de modo algum. Agora, se continuamos no texto de Chauí, e chegamos ao fim do tópico, as coisas ficam mais complicada ainda. Pois, no final desta parte, ela diz o que já contei, que é que a tradição tem acertado na sua noção de “amor platônico”.

Sobre isso, “a tradição” errou feio. Pois quando falamos, na literatura ou no âmbito da conversa comum, sobre “amor platônico”, estamos dizendo que nosso amor se dirige a algo individual. É um amor distante, mas dirigido a alguém, a algo individual. Ora, o amor platônico, na acepção de O Banquete, é o amor pela Forma, portanto, pelo universal. Aliás, essa falta do amor pelo individual, em Platão, é o que é reclamado por Gregory Vlastos.[10] E eis aí, então, a razão do aparecimento de Alcebíades, que Chauí não notou. Ou que não quis notar! (quanta censura pode haver em nossa cabeça cristã, não?)

Nesse particular, vale a pena lembrar a interpretação de Marta Nussbaum.[11] Ela diz que Vlastos procura em Platão o amor individual e, enfim, não acha e censura o Cisne de Atenas por isso. Mas ela, Nussbaum, lembra que Vlastos pode ter procurado no lugar errado, ou seja, na fala de Sócrates-Diotima. Pois o amor individual aparece, justamente, ao final, quando Alcebíades entra e faz o seu discurso chamando a atenção para sua maneira de seguir Eros – seguindo o amor pelo indivíduo Sócrates. Aliás, Alcebíades usava em seu escudo não um brasão de seus ancestrais, e sim a figura de Eros segurando um raio. Ele era um devoto de Eros, mas de um modo especial. Platão não deixou isso passar. Não censurou a fala de Alcebíades. Ao contrário, ele fechou o texto com essa fala.

Valeria aí retomarmos as discussões sobre a origem da filosofia, se Platão é seu início no Ocidente. E valeria a pena, creio eu, que a professora Marilena Chauí retomasse esses pontos problemáticos em seu livro que, afinal, é um livro bastante utilizado pelos jovens.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.,

http://ghiraldelli.org e http://ghiraldelli.ning.com


[1] Nietzsche, F. O problema de Sócrates. Trad. Paulo Cesar Souza. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Cia das Letras, 2006, aforismo 23, p. 76

[2] Ghiraldelli Jr., P. História da filosofia. São Paulo: Contexto, 2008. Para uma referência mais rápida, online, ver:

[3] Chauí, M. Introdução à história da filosofia. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 187.

[4] Plato.. The apology of Socrates. Trad. G. M. A. Grube. Five dialogues. Indianapolis: Hackett Publishing Company.21, d, p. 26.

[5] Plato. Trad. Nehamas and Woodruff. Symposium. Indianapolis. Hackett Publishing Company, 1989. 177D, p. 8

[6] “Sobre um erro de Marilena Chauí”:

[7] Nietzsche, F. O problema de Sócrates. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo, 2006.

[8] Chauí, M. Op. cit., p., 212.

[9] Dodds, Plato and the irrational soul. In; Vlastos, G. (org.) Plato II. Notre Dame: University of Notre Dame, 1978. P. 221.

[10] Vlastos. G. Love in Plato. In: Platonic Studies. Princeton: Princeton University Press, 1981.

[11] Nussbaum, M. Trad. Ana Aguiar Cotrim. A fragilidade da bondade. São Paulo: Martins Fontes, 209, p. 173



 
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